Perturbado, não dormia. Os colegas do lado murmuravam e oravam, mas não adiantava! Todos se afastaram; se via isolado e para evitar que acontecesse outra vez, se açoitava. O barulho estalado da chibata na carne era um sopro de desespero; os gritos de “Ai, meu Deus”, o pedido de salvação. Via a carne rasgar em câmera lenta, o sangue escorrer por baixo da túnica e o corpo se culpar pelo que os olhos viram e as mãos tocaram. Nunca mais iria ser seduzido daquela maneira, era o que pensava.
Mas os olhos viram mais uma vez naquela noite: o buraco começou a se formar na parede. De joelhos que estava, tornou-se de pé; caminhou para trás, se encurralou no único refúgio que tinha, fechou os olhos, trincou os dentes e rezou. Atitude inútil: Deus e todos os santos o ignoraram, estavam punindo-o, sabia disto! Não podia ir, tinha dedicado a sua vida à Santa Igreja e aquela criatura não iria levá-lo. Sentiu um bafo quente e um perfume que lhe fez perder os sentidos: estava acontecendo de novo! Encolhido num canto de parede foi tocado: uma mão invadiu-lhe por baixo da manta; suas mãos não reagiram, a vontade que aquilo acontecesse de novo era maior, então foi levemente puxado em direção ao buraco. Relutou em entrar, mas não adiantou; e a única coisa que não queria, novamente aconteceu.
(...)
Um sorriso desenhou-lhe o rosto. Quando estava naquele mundo, não entendia por que rejeitava o prazer, a terra do pecado era tão boa! Se agradava com tudo o que via: mulheres se amando, homens entornando canecas de cerveja cercados por outras mulheres. Uma multidão a sua frente o tratava como se ele não existisse, mesmo com a sua veste sagrada o distinguindo de todos. Não entendia como ninguém reparava um monge ali. Mas isso não importava: ele queria sentir outra vez o perfume que lhe inebriava todas as noites. Sentiu braços o envolverem por trás e logo também o perfume entranhar-lhe as narinas como um veneno fatal impossível de ser evitado. Virou-se para uma surpresa estarrecedora: avistou Inês, a noviça que lhe curara a febre do outro dia. Aquilo só podia ser uma provação, ele tinha ficado com ela em pensamento por dois dias e agora tudo criava um sentido: depois do desejo, Deus o testava! Ela sorriu como se lesse os seus pensamentos e o guiou de volta para o buraco na parede, de volta para o mosteiro.
Ele a olhava espantado, não entendia como aparência tão angelical era tão demoníaca. Sorrindo, ela deixou cair o fino vestido que escondia o seu corpo. Em uma ação impetuosa ele enfiou a mão por baixo da túnica e fez Inês gargalhar vendo aquele movimento frenético. Ele queria parar, mas não conseguia. Quando o ritmo dele aumentava, a gargalhada dela também: de braços abertos, nua, se regozijando. Quando chegou o momento do gozo, contorceu o corpo e gritou desesperado, como se estivesse na cruz:
“Por que me abandonaste, Pai?”
Inês fixou o olhar sobre o monge caído e seriamente lhe disse:
“Porque eu fui Eva e você, Adão. E mais uma vez a criação dEle fracassou!”