segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Um buraco na parede e uma fresta na alma

Perturbado, não dormia. Os colegas do lado murmuravam e oravam, mas não adiantava! Todos se afastaram; se via isolado e para evitar que acontecesse outra vez, se açoitava. O barulho estalado da chibata na carne era um sopro de desespero; os gritos de “Ai, meu Deus”, o pedido de salvação. Via a carne rasgar em câmera lenta, o sangue escorrer por baixo da túnica e o corpo se culpar pelo que os olhos viram e as mãos tocaram. Nunca mais iria ser seduzido daquela maneira, era o que pensava.


Mas os olhos viram mais uma vez naquela noite: o buraco começou a se formar na parede. De joelhos que estava, tornou-se de pé; caminhou para trás, se encurralou no único refúgio que tinha, fechou os olhos, trincou os dentes e rezou. Atitude inútil: Deus e todos os santos o ignoraram, estavam punindo-o, sabia disto! Não podia ir, tinha dedicado a sua vida à Santa Igreja e aquela criatura não iria levá-lo. Sentiu um bafo quente e um perfume que lhe fez perder os sentidos: estava acontecendo de novo! Encolhido num canto de parede foi tocado: uma mão invadiu-lhe por baixo da manta; suas mãos não reagiram, a vontade que aquilo acontecesse de novo era maior, então foi levemente puxado em direção ao buraco. Relutou em entrar, mas não adiantou; e a única coisa que não queria, novamente aconteceu.

(...)

Um sorriso desenhou-lhe o rosto. Quando estava naquele mundo, não entendia por que rejeitava o prazer, a terra do pecado era tão boa! Se agradava com tudo o que via: mulheres se amando, homens entornando canecas de cerveja cercados por outras mulheres. Uma multidão a sua frente o tratava como se ele não existisse, mesmo com a sua veste sagrada o distinguindo de todos. Não entendia como ninguém reparava um monge ali. Mas isso não importava: ele queria sentir outra vez o perfume que lhe inebriava todas as noites. Sentiu braços o envolverem por trás e logo também o perfume entranhar-lhe as narinas como um veneno fatal impossível de ser evitado. Virou-se para uma surpresa estarrecedora: avistou Inês, a noviça que lhe curara a febre do outro dia. Aquilo só podia ser uma provação, ele tinha ficado com ela em pensamento por dois dias e agora tudo criava um sentido: depois do desejo, Deus o testava! Ela sorriu como se lesse os seus pensamentos e o guiou de volta para o buraco na parede, de volta para o mosteiro.

Ele a olhava espantado, não entendia como aparência tão angelical era tão demoníaca. Sorrindo, ela deixou cair o fino vestido que escondia o seu corpo. Em uma ação impetuosa ele enfiou a mão por baixo da túnica e fez Inês gargalhar vendo aquele movimento frenético. Ele queria parar, mas não conseguia. Quando o ritmo dele aumentava, a gargalhada dela também: de braços abertos, nua, se regozijando. Quando chegou o momento do gozo, contorceu o corpo e gritou desesperado, como se estivesse na cruz:

“Por que me abandonaste, Pai?”

Inês fixou o olhar sobre o monge caído e seriamente lhe disse:

“Porque eu fui Eva e você, Adão. E mais uma vez a criação dEle fracassou!”

sábado, 21 de abril de 2007

O UNIVERSO, DE TANTO CRESCER, SE ESPATIFOU

Um “Poliverso” não é mais imaginação do que um “ciberespaço”. O termo [ciberespaço] inaugurado em Neuromancer de William Gibson, hoje é a realidade do mundo que assume a necessidade de retomar a consciência que há um “lugar especial” para se chegar. Com o fim das localizações hierárquicas medievais, imaginadas, sonhadas e vividas, a res extensa de Descartes traduziu o que as grandes mentes da ciência se empenharam em fazer nos últimos séculos: tornar o espaço do além-mundo também, físico.

Da noção de espaço infinito de Giordano Bruno, passando pelo sistema copernicano, pelo movimento heliocêntrico de Kepler e Galileu, pelo “todo absoluto” de Newton, pela idéia de “dobras no espaço” de Einstein, pela existência de galáxias que “empurram” o universo de Hubble, a lógica universal de George Gamow e o seu Big Bang e, enfim, os whormholes de Setphen Hawking, teoricamente teríamos chegado ao fim de tudo. Afinal de contas, nem Deus tem mais seu lugar celeste, pois o céu foi estudado, matematizado e revelado com todo o seu caráter físico. O jeito é retomar velhas práticas medievais!

Imaginar lugares. Mundos e galáxias distantes, inventadas. No medievo, não faltaram exemplos de como se fazia isso. Talvez a maior diferença entre as práticas medievais e as (hiper) modernas é a de que os espaços imaginados na Idade Média refletiam aspectos cotidianos da vida concreta, e os nossos mundos sonhados são mais reflexos das nossas incertezas do que a tentativa de afirmar as certezas.

A ficção científica traduz exatamente as nossas incertezas. Ela tem viajado por mundos e galáxias sem precisar saber onde vai chegar, de fato. Cada episódio ou aventura, um mundo diferente, com seres diferentes. Todavia, ela também tem afirmado alguma coisa, por acaso, determinante para sua própria existência: o universo é concreto e, por isso, perfeitamente “navegável”. Ela não é delirante, o revés disto: relembra-nos a cada aventura que podemos chegar em algum canto. Mas enquanto não sabemos onde, nós, que não podemos viajar na Enterprise ou tomar uma cerveja feita de especiaria importada diretamente de Arrakis, criamos, como os medievais, os nossos mundos sem ter que sair da área gravitacional.

De nossas casas, de nossos quartos e escritórios somos capazes de conviver com a sociedade e as instituições que a constitui. Mais que isso, temos a capacidade de inventar mundos para que possamos lançar neles o que temos de melhor em nós. Muitas vezes recortamos nossa personalidade em pedacinhos e distribuímos as partículas onde elas melhor se adaptam. Assim, os ciberespaços são formas de criarmos lugares para que possamos, confortavelmente, chegar em algum lugar. Não obstante, possibilidades até de inventarmos a nós mesmos. Eis-me aqui nessa tarefa!

Seres inventados em mundos imaginados. As possibilidades de exploração de toda essa “invenção real” são sedutoramente infinitas. Pensando assim foi que me surgiu a idéia de imaginar um (Uni)verso que de tanto se expandir, se descobriu diverso, se achou num (Poli)verso. Não que eu esteja escrevendo este texto de um ônibus espacial que está a trafegar na galáxia de Andrômeda, mas que já estou imaginando o meu mundo e anunciando para vocês, futuros visitantes deste “boteco de letras e imaginação”: ele está posicionado (nem localizado e nem estendido) entre o que já conhecemos e o que podemos conhecer. Não falo em um devir propriamente, mas em imaginação.


É com muito prazer que, entre a ficção científica e a fantasia, inauguro e anuncio o universo que se espatifou de tanto se expandir, e que agora a minha mente tenta com esforços visualizar os seus pedaços e descrevê-los um a um. Nem que para isso eu precise inventá-lo e com isso torná-lo, portanto, novamente em um além-mundo, um espaço imaginado ou mesmo um sonho de eternidade.